O VÍRUS DA LINGUAGEM
O VÍRUS DA LINGUAGEM é um projeto de pesquisa artística do qual resultam duas criações com direção artística de Catarina Lacerda: A GRANDE TEIA, nos labirintos da língua (leituras performativas para pequenas plateias, com estreia prevista em 2027) e À MESA COM — O Vírus da Linguagem (tragicomédia punk-rock-melo-eletrónica, com estreia prevista em 2028).
Ainda que autónomas, os processos de criação e equipas nucleares de ambas entrelaçam-se de modo intencionalmente complementar, ao longo de um cronograma bienal que articula o processo criativo com ações de mediação (auscultando diferentes sensibilidades e pontos de vista sobre matérias e conteúdos no processo de atualização), formação especializada (aprofundando competências e relação interpares) e edição (enquadrando e posicionando a criação numa rede expandida de referências).
Sintonizando o nosso ouvido à subtileza do momento — por entre redes sociais, comunicados, prompts e outras artificialidades — e inspirados por uma constelação polifónica referencial, propomo-nos a mergulhar nos desafios ancestrais da linguagem, repensando o emaranhado de narrativas que ocupa e constitui a atualidade, especulando diálogos possíveis entre ficção e realidade, passado, presente e futuro.
DA CONSTELAÇÃO POLIFÓNICA REFERENCIAL
O mergulho criativo inaugura-se à luz de uma constelação rara, que aqui revelamos cronologicamente:
1949 — George Orwell especula uma distopia a que dá o nome de 1984. Nela pratica-se e implementa-se um mecanismo de controlo do pensamento, a Novilíngua, baseado na simples ideia de que ao reduzir a linguagem daquele que fala, reduz-se o pensamento daquele que pensa e age.
1962 — William S. Burroughs inocula o mundo com uma sugestão – e se a linguagem for um vírus vindo do espaço? Sugere ele que as palavras funcionam como agentes biológicos que infetam o corpo humano, transmitindo-se, evoluindo e moldando o pensamento do hospedeiro. Controlando a mente, o vírus controla a perceção da realidade, funcionando então como "máquina de produzir alucinações".
1986 — Laurie Anderson, alucinando com a máquina de produzir alucinações, escreve e música Home of the brave, álbum que viralizará gerações e gerações de ouvintes.
2013 — Regina Guimarães escreve, na borda de um guardanapo: “eu como a língua / mas ela também me come / e eu deixo que ela me coma / me transforme desde dentro / me faça mundo por fora / todo o ontem amanhã e já amanhã agora.” Este rascunho viria a ser o início de um dos poemas do livro Comer a Língua.
2016 – Donna Haraway publica Staying with the trouble, desafiando-nos a acolher e entender o problema como parte fundamental do processo de regeneração.
2018 – Joana Bértolo, como que atravessada por uma voz, escreve em Ecologia: “eu sou protagonista de todos os livros que já leste… Os irmãos Karamazov sou eu. O teu corpo é feito de reentrâncias que eu preencho. O teu pensamento é feito de planícies informes que eu organizo. Eu sou a explicação por alcançar. […] As palavras… podem bem ser tuas, coisa-humana, mas sou eu a forma como a tua casa respira. A tua casa, este planeta. Eu, a linguagem”.
2024 – Rob Hopkins documenta um projeto on going de pesquisa-ação-investigação das chamadas comunidades de transição, propondo: E se libertássemos a nossa imaginação para criar o futuro que desejamos?.
2026 – Catarina Lacerda, alucinada e sugestionada, por entre evidências, fake news, ministérios da verdade, novi-prompt-língua, sucumbindo não raras vezes ao poder das várias máquinas de produzir alucinações, senta-se ao computador vislumbrando a grande teia da qual participamos, como um grande labirinto ou uma enorme constelação, desejando sentar-se à mesa com. É assim que, sílaba a sílaba, palavra a palavra, de referência em referência, nasce o projeto O VÍRUS DA LINGUAGEM, feito em duas fases: A GRANDE TEIA, com estreia prevista para 2027, e À MESA COM, com estreia prevista para 2028.